O legado do livro de Daniel



 O legado do livro de Daniel - Escola Dominical
Lição 6 - 9/11/2014

Por: Ev. Dr. Caramuru Afonso Francisco

A queda do Império Babilônico
O poder humano é passageiro.

Introdução:

Na sequência do estudo do livro do profeta Daniel, estudaremos hoje o seu capítulo cinco.

A queda do Império Babilônico, narrada neste capítulo, mostra-nos que o poder humano é passageiro. 






I – O BANQUETE DE BELSAZAR

Na sequência do estudo do livro do profeta Daniel, estudaremos hoje o seu capítulo cinco, onde Daniel narra a queda do Império Babilônico, que foi ocularmente testemunhada por este profeta que, entretanto, milagrosamente, foi poupado desta queda, permanecendo a trabalhar para os medos e persas que substituíram os babilônios no comando do mundo de então.

O capítulo inicia dizendo que o rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus grandes e bebeu vinho na presença dos mil.

Como o capítulo anterior terminou com a glorificação a Deus feita pelo rei Nabucodonosor, torna-se necessário aqui um esclarecimento do ponto-de-vista histórico, para que saibamos quando se deram estes fatos e quem era este rei Belsazar, que agora surge num banquete.

Nabucodonosor reinou em Babilônia até o ano 562 a.C., quando morreu tendo por volta de oitenta e três, oitenta e quatro anos de idade, ou seja, cerca de 35 anos depois de ter trazido para Babilônia os primeiros cativos de Judá, entre os quais Daniel. Era, precisamente, a metade do tempo previsto para o cativeiro, consoante profetizara Jeremias.

Morto Nabucodonosor, foi ele sucedido pelo seu filho Evil-Merodaque (II Rs.25:27; Jr.52:31), que, inclusive, tratou benignamente ao rei Joaquim, que havia sido levado cativo para Babilônia juntamente com Daniel.

Evil-Merodaque reinou apenas dois anos, sendo morto por seu cunhado, Nerglissar, que talvez seja o Nergal-Sarezer mencionado em Jr.329:3,13, que se apoderou do reino, tendo sido sucedido por seu filho Labashi-Marduk em 556 a.C., que reinou apenas nove meses, sendo deposto pelos sacerdotes, que o substituíram por Nabonido, que, a partir de um determinado momento, cerca de dois anos depois de assumir o trono, passou a dividir o governo de Babilônia com seu filho Belsazar. Nabonido era genro de Nabucodonosor e, portanto, Belsazar era neto daquele monarca.

Segundo Russell Norman Champlin, “...Nabonido envolveu-se em obras de cunho religioso, tendo restaurado o templo de Sim, o deus-lua, em Harã. Em seguida, deu início a uma série de conquistas militares que chegaram a expandir um pouco as fronteiras do império. Nabonido manteve-se em contato com sua capital, Babilônia, mas esteve envolvido em muitas coisas, inclusive de natureza comercial...” (Nabonido. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.4, p.433).

Diante deste pequeníssimo resumo histórico, vemos que Belsazar era corregente do reino de Babilônia, filho do rei Nabonido que, diante da guerra que se enfrentava contra os medos e persas, não se encontrava em Babilônia quando do episódio narrado neste capítulo cinco, que ocorreu em 539 a.C., ou seja, 58 anos depois que Daniel havia chegado a Babilônia.

Pois bem, esclarecido quem era este “rei Belsazar”, cujo nome significa “Bel protege o rei” (Bel era uma divindade babilônia), diz o texto sagrado que este rei, mesmo estando Babilônia cerca pelos exércitos dos medos e persas, em vez de tomar uma atitude de austeridade e de preocupação com o risco que vivia o seu país, resolveu fazer um banquete, convidando mil pessoas, no meio da elite de Babilônia, para este evento.

De pronto, vemos a insensibilidade e a insensatez do Belsazar. Enquanto a cidade corria grandes riscos de cair nas mãos dos inimigos, ele preferia banquetear. Estava totalmente indiferente aos sérios e graves problemas por que passava a sua nação, totalmente alheio às graves circunstâncias, numa clara demonstração de soberba, de orgulho. Belsazar, ao convocar um banquete numa situação como a que estava vivendo, era prova evidente de que achava que o reino de Babilônia era inexpugnável, jamais terminaria, de que o poder que possuía era permanente, sem qualquer possibilidade de término ou derrota.

OBS: “...E aqui devemos considerar a providência de Deus que administra cada segundo do tempo, para que os ímpios, assim que o tempo de sua ruína chegar, espontaneamente corram para ela. Assim aconteceu a esse rei perverso. Revelou surpreendente estupidez preparando um esplêndido jantar, recheado de delícias, mesmo quando a cidade se achava sitiada. Porquanto Ciro há muito tempo iniciara o sitio à cidade com um grande exército. O desditoso lugar já estava dominado em sua metade. E, mesmo assim, como em franco desprezo a Deus, organizou um suntuoso banquete para mil convidados....” (CALVINO, João. Daniel. Trad. de Eni Dell Martins Fonseca. Digit. Geral; jogois2006, v.1, p.309)

Ora, conforme vimos na lição anterior, era o mesmo sentimento que havia acometido o seu avô Nabucodonosor anos antes e que lhe havia custado muito caro, uma humilhação imensa, para que ele reconhecesse a soberania divina. No entanto, Belsazar era alheio a estes fatos, considerava-se “o maioral”, aquele que não seria jamais retirado de sua posição, que seu poder era eterno, o que era um sentimento totalmente equivocado.

OBS: “...Belsazar foi um homem que desprezou o conhecimento de Deus e não lhe deu glória, a despeito de conhecer a verdade (Dn 5.22). A impiedade produz perversão. O desprezo do conhecimento de Deus leva o homem a uma vida dissoluta moralmente. Belsazar conhecia a verdade, mas não foi dirigido por ela. Ele conhecia a verdade, mas a rejeitou deliberadamente para viver regaladamente em seus pecados....” (LOPES, Hernandes Dias. Daniel – um homem amado no céu, p.71).

Segundo Russell Norman Champlin, neste tempo, “...as coisas não iam bem com a Babilônia, ameaçada por uma terrível inflação. E Nabonido declarou que essa situação devia-se aos muitos e grandes pecados do povo. Finalmente, Nabonido retornou à capital, onde fez obras de reparo nos santuários mais importantes dos deuses, demonstrando assim sua preocupação religiosa.(...), Entretanto, as coisas iam de mal para pior para Babilônia, militar e economicamente....” (ibid.).

O próprio rei Nabonido reconhecia a situação difícil que vivia Babilônia, mas recorria aos seus deuses para tentar melhorar tais circunstâncias adversas, também desprezando as condições de seu sogro Nabucodonosor a respeito do Deus Altíssimo. Babilônia, a quem Deus havia Se revelado grandemente, dava as costas ao Senhor e, deste modo, estava assinando a sua própria sentença de morte, estava caminhando celeremente para a destruição, destruição que, aliás, já havia sido vaticinada pelos profetas judeus, como Isaías e Jeremias.

Belsazar era pior do que seu pai, porém. Nabonido ainda reconhecia a situação grave por que passava Babilônia, mas Belsazar era a tudo indiferente, preferindo desfrutar do luxo e das benesses do poder, convocando um banquete para mil pessoas quando sua cidade estava a ponto de ser tomada pelos medos e persas. Era uma insensibilidade e um insensatez do rei, que ainda hoje vemos na vida de muitos que, mesmo diante dos eloquentes sinais da vinda de Cristo, das calamidades que cercam este mundo tenebroso em que vivemos, persistem correndo atrás de entretenimento, numa busca desenfreada de prazer, totalmente alheios à proximidade do juízo divino. Será que não temos sido convidados de Belsazar neste mundo? Pensemos nisto! 

Belsazar preferiu banquetear-se e chamou, para tanto, os seus “mil grandes”, os homens e mulheres de maior proeminência na corte que, igualmente alheios à realidade difícil por que Babilônia vivia, resolveram festejar e participar de uma festa, enquanto o povo sofria e a cidade corria o risco de ser tomada. 

OBS: “...Neste banquete real, podemos observar o extremo descuido daquela gente. O inimigo estava às portas da cidade, enquanto todos os grandes do reino se encontravam reunidos numa bebedeira. O comandante Ciro já se encontrava desviando o curso do rio Eufrates, que passava pelo meio da cidade e, após, entrou pelo leito seco do rio....” (SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo, p.92). 

Isto não é algo peculiar às cortes orientais da Antiguidade. Muito disso ocorre ainda hoje em nossos dias, entre os que estão na camada superior da sociedade, seja no aspecto político, seja no aspecto social, seja no aspecto econômico-financeiro. Nossos dias não diferem dos de Belsazar, ainda mais porque estamos na preparação final do mundo para o Anticristo e seu governo, que será caracterizado pelo luxo e pela ostentação, vez que será um reino de imensa injustiça e desigualdade social, como nos mostra claramente Ap.18:3,9. Esta é uma característica do sistema gentílico, que já havia sido mostrado a Nabucodonosor no sonho da estátua. 

Belsazar bebeu vinho na presença dos mil, dando a entender que, neste banquete, havia total falta de limites, a ponto de o próprio rei se embriagar despudoradamente. Esta festa revelava toda a índole do mundo sem Deus e sem salvação, toda a carnalidade existente no mundo. Quando somos guiados pela carne, pelos nossos instintos, há uma conduta totalmente desenfreada, não há limite algum, estando todos dominados pelas paixões e concupiscências. 

O vinho aqui simboliza a falsa alegria do mundo, a busca pelo prazer nas coisas desta vida. É neste sentido que o apóstolo Paulo recomenda aos servos de Deus que não se embriaguem com o vinho, mas que se encham do Espírito (Ef.5:18), porque o vinho é tudo quanto pretende satisfazer o ser humano com as coisas desta vida, enquanto que o Espírito é Aquele que nos fará ter as coisas que vêm do alto, as coisas do céu, as coisas eternas, que nos permitirão ter comunhão com o Senhor e desfrutar, desde já, a vida eterna. 

Havendo Belsazar provado o vinho, mandou trazer os vasos de ouro e de prata que Nabucodonosor havia retirado do templo de Jerusalém, para que fossem usados para beber pelos convidados (Dn.5:2). 

Paulo, no texto já mencionado de Ef.5:18, diz que, quando alguém se embriaga com o vinho, está sujeito à contenda, porque a carnalidade, o egoísmo, leva, naturalmente, ao conflito. Por primeiro, ao conflito entre as próprias pessoas, pois todas, animadas pelo egoísmo, pelo individualismo, quererão submeter os outros às suas vontades desenfreadas, o que gerará, naturalmente, conflitos entre os envolvidos. 

Por segundo, porém, vemos que a vida na carnalidade, a busca da satisfação dos desejos desenfreados, acaba gerando uma contenda entre a pessoa e Deus, porquanto o egoísmo leva à soberba que, como vimos na lição anterior, é um atentado à soberania divina. 

Belsazar não se contentou apenas em se embriagar, mas resolveu usar os vasos que Nabucodonosor havia trazido do templo de Jerusalém e que, por 58 anos, haviam ficado intocados no palácio real. Belsazar estava tão dominado pelos desejos desenfreados, que quis ”inovar”, quis usar daqueles vasos trazidos de Jerusalém, que nunca haviam sido usados até então. 

Belsazar não via no Deus Altíssimo, como o chamava Nabucodonosor, nenhum valor. Não tinha qualquer temor a este Deus que havia levado o seu avô a comer da erva do campo por sete tempos, que havia glorificado e exaltado este Deus, que reconhecera ser o dominador de todas as coisas. Belsazar queria apenas satisfazer seus caprichos e, totalmente dominado pelas paixões da carne, não teve qualquer prurido ou reverência em usar aqueles vasos vindos do templo de Jerusalém para a satisfação de suas concupiscências e de todos que com ele estavam. 

Belsazar mandou que se trouxessem estes vasos e a sua ordem foi prontamente atendida. Em pouco tempo, todos os mil convivas usavam daqueles vasos para beber o vinho, para se embriagar, havia sido quebrado um “tabu” que durara quase 60 anos, Belsazar e seus convidados mostravam que faziam o que bem queriam, que ninguém os podia deter. 

Como se isto fosse pouco, usando dos vasos trazidos do templo de Jerusalém, começaram a louvar os deuses babilônios. “...O presente texto nos mostra quão grande foi o desrespeito daquela gente à santidade divina, eles não só beberam, mas deram também ‘louvores’ àqueles que, por natureza, não são deuses. (...) O rei e seus grandes não deram ouvidos à mensagem divina, que está sempre a clamar...” (SILVA, Severino Pedro da. op.cit., p.93). 

Tudo parecia normal. Belsazar e seus mil convidados viviam num “mundo de fantasia”, estavam a satisfazer todos os seus instintos, tudo parecia muito bom, apesar de os medos e persas estarem a ponto de invadir a cidade e de o nome do Senhor estar sendo desonrado. A ilusão dominava e todos que ali estavam achavam estar desfrutando “do bom e do melhor”. 

Quantos não estão a repetir este engano? Quantos não estão totalmente envolvidos pelo entretenimento, pelas fantasias deste mundo, inclusive tomando atitudes de irreverência e de verdadeira blasfêmia contra Deus? 

Em meio àquela orgia, aquele verdadeiro bacanal, algo totalmente diferente acontece. Diz o texto sagrado: “Na mesma hora, apareceram uns dedos de mão de homem, e escreviam, defronte do castiçal, na estucada parede do palácio real e o rei via a parte da mão que estava escrevendo” (Dn.5:5). 

Que cena impressionante! Aparece uma mão, que é vista por todos os que ali estavam e escreve algo na parede do salão de festas. Toda aquela algazarra cessou num só instante. Ocorrera algo sobrenatural, incompreensível, que fez cessar todo o alarido, todo o festival. Não havia ali vinho algum que subsistisse, não havia qualquer atitude carnal que continuasse, diante de algo tão misterioso. 

“...A mão direita de Deus Pai está em foco na presente passagem. O rei não pôde ver a mão completa, mas apenas uma parte, certamente apenas os dedos que escreviam; os magos de Faraó, no Egito, não puderam ver a mão de Deus, mas apenas o Seu ‘dedo’ (Ex.18:19). Existe um grande contraste entre ‘o justo e o ímpio, entre o que serve a Deus e o que não O serve’ 9Ml.3:18). Enquanto o rei apenas via ‘a parte da mão’ misteriosa, os profetas do Senhor puderam contemplar, com exatidão, não só osdedods de Deus, mas, de um modo particular: 1) as suas mãos (I Rs.22:19); 2) as palmas das mãos (Is.49:16); 3) a sombra da Sua mão (Is.49:2)...” (SILVA, Severino Pedro da. op.cit., p.94). 

O rei, ao ver a mão de homem que escrevia na parede, mudou o seu semblante, seus pensamentos se turbaram e as juntas de seus lombos se relaxaram, e os seus joelhos bateram um no outro. Era uma situação de desespero, de grande medo. “...O famoso pintor Washington Alliston gastou mais de doze anos experimentando pintar a festa de Belsazar, morreu deixando a obra incompleta! – O pintor não podia alcançar, mesmo com todo o seu potencial de imaginação, o desespero de uma alma sem redenção que, de repente, se encontra face a face com o julgamento de Deus; o veredicto judicial escrito na parede, por mãos misteriosa do outro mundo refletia toda aquela sentença pronunciada por Deus...” (SILVA, Severino Pedro da. op.cit., pp.94-5). 

A festa havia acabado e o espanto e desespero haviam tomado conta de todos aqueles convidados. Esta é a alegria que vem do mundo, a alegria passageira e que desaparece por completo quando sobrevém alguma adversidade e, sobretudo, quando algo da parte de Deus sobrevém para chamar todos à consciência. 

II – A INTERPRETAÇÃO DA ESCRITURA NA PAREDE 

Diante daquela inusitada e aterradora situação, Belsazar não teve outra saída senão voltar a exercer a sua função real, ordenando com força que se introduzissem os astrólogos, caldeus e adivinhadores na sua presença. Belsazar, então, disse que quem lesse aquela escritura na parede e declarasse a sua interpretação seria vestido de púrpura e traria uma cadeia de ouro ao pescoço e seria, no reino, o terceiro dominador (Dn.5:7). 

Nesta atitude do rei Belsazar podemos ver como estava decadente o Império Babilônico, como se prenunciava o seu fim, como a autoridade do rei estava desgastada e desprestigiada, o que não era de esperar de modo diferente diante de sua insensibilidade e insensatez, demonstrada na própria convocação do banquete num momento tão delicado da história daquele reino, em plena guerra, em pleno sítio do inimigo. 

Por primeiro, o texto diz que o rei deu uma ordem “com força”, o que, em outras versões, é traduzido como “aos berros” (KJA) “clamou em alta voz” (ARA, TB), ou, ainda, “gritou” (CNBB). Isto mostra o destempero em que se encontrava o rei, totalmente apavorado pelo que havia visto. O rei era desequilibrado, não tinha moderação, e isto já havia demonstrado quando se embriagara juntamente com mil de seus grandes, atitude que jamais poderia tomar diante de sua posição, pois, como diz a mãe do rei Lemuel: “não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte, para que não bebam e se esqueçam do estatuto e pervertam o juízo de todos os aflitos” (Pv.31:4,5). 

A autoridade do rei estava arranhada, porque ele não tinha equilíbrio, não tinha moderação. De igual forma, não é próprio do servo de Deus deixar-se levar pelas coisas desta vida, pela concupiscência, pois ele é parte do “sacerdócio real” (I Pe.2:9), devendo, assim, não se envolver com os prazeres carnais, com as coisas desta vida, para que não venha a se esquecer do estatuto, ou seja, da lei do Senhor e não venha a se comportar de forma injusta perante os homens. 

Nos tempos de Nabucodonosor, bastava a ordem e o decreto para que os sábios fossem chamados. Mesmo atônito, perturbado com sonhos que tivera, aquele monarca tinha autoridade para simplesmente chamar os sábios e ser atendido. Belsazar teve de gritar para ser atendido, a demonstrar uma nítida perda de autoridade e de respeito para com os seus súditos. A gritaria é prova indelével de perda de autoridade, decorrente da má conduta daquele que está a comandar. 

Por segundo, Belsazar, ao mandar que se interpretasse a escritura, foi obrigado a prometer uma honraria para que obtivesse a interpretação. Aquele que o fizesse seria vestido de púrpura, traria cadeia de ouro em seu pescoço e seria, no reino, o terceiro dominador. 

No tempo de Nabucodonosor, havia tão somente a ordem para se interpretar ou revelar o sonho, sem que qualquer honraria fosse prometida, porque as pessoas não agiam em troca de interesses ou favores, mas com sentimento do dever, comprometimento e lealdade para com o rei. 

Nos dias de Belsazar, entretanto, este sentimento havia se perdido. Todos somente buscavam os seus próprios interesses e, por isso, era necessário prometer algo para que se tivesse a interpretação, para que se executasse o serviço para o qual haviam sido escolhidos para efetuar. Não havia mais compromisso, não havia mais sentimento do dever. 

OBS: Este sentimento predominante na corte babilônia nos dias de Belsazar fica bem evidenciado em a narrativa que dá a respeito o historiador Flávio Josefo: “...ele [Belsazar, observação nossa] mandou publicar e apregoar por todo o território que daria uma cadeia de ouro e uma túnica de púrpura como as que usam os reis na Caldeia e a terça parte de seu reino a quem lhe desse a interpretação daquelas palavras. A promessa de tão grande recompensa fez chegar de todos os lados os candidatos que passavam pelos mais hábeis e peritos...” (Antiguidades Judaicas X, 12. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.230). 

Porventura, não é que temos observado, com cada vez maior frequência, em nossas igrejas locais, onde tem, aliás, aumentado sobremaneira a burocracia e o número de “funcionários”? Já não são mais numerosos, como antigamente, aqueles que estão na obra do Senhor voluntariamente, por gratidão ao Senhor que os salvou, mas há grande número de “mercenários”, que somente fazem algo se receberem algo em troca, que não trabalham se não forem remunerados por aquilo que estão a fazer. Tomemos cuidado, amados irmãos, pois isto é nítido sinal de decadência e, muito mais grave do que na Babilônia de Belsazar, de decadência espiritual! 

Todos os sábios do rei entraram no salão de festas, que se havia tornado o salão do terror e do medo. Ninguém pôde ler a escritura que estava escrita na parede estucada (Dn.5:8). 

Temos aqui, aliás, uma terceira demonstração da decadência que vivia Babilônia, qual seja, a do total desprezo que se dava aos sábios nos dias de Belsazar. Belsazar havia chamado “mil dos seus grandes” e, entre eles, não estava sábio algum. Havia um completo desprestígio da classe intelectual nos dias de Belsazar e isto, para um centro de excelência científica, como era Babilônia, revela quão mal estava aquele império. Quando se desprezam os sábios, quando se desprezam os que têm o conhecimento, está-se a erodir toda a estrutura de uma sociedade, está-se a decretar a lenta morte de toda uma civilização. 

Com a igreja local não é diferente. Não se pode, de forma alguma, desprezar os mestres, aqueles que foram levantados por Deus para ensinar. A falta de conhecimento do povo é causa de sua destruição (Os.4:6). No entanto, o que vemos, também, com cada vez maior frequência, os “sábios”, os ensinadores nas igrejas locais são desprezados, deixados de lado, assim como as Escolas Bíblicas Dominicais e demais reuniões de ensino, o que apenas tem contribuído para a destruição de muitas vidas, para a transformação de muitas igrejas locais em meros aglomerados sociais sem qualquer relevância espiritual. 

Deus, assim como havia feito com Nabucodonosor, faz com o ímpio e blasfemo Belsazar, mostrando toda a impotência da religião babilônica, do saber calcado na idolatria e no mundanismo. Nenhum sábio pôde interpretar o que estava escrito na parede, escritura esta que o saudoso pastor João Vicente Branco Júnior dizia ter sido a primeira manifestação de “línguas estranhas” na história da humanidade. 

Diante da incapacidade declarada pelos sábios babilônios, Belsazar desesperou-se ainda mais. Ao contrário de Nabucodonosor que, ante tal situação, chegara a se enfurecer e até a mandar matar os sábios, Belsazar demonstra toda a sua fraqueza. A resposta negativa dos sábios nada mais fez senão aumentar o seu pavor e a sua perturbação, o que contaminou a todos os convidados, que também estavam sobressaltados, ou seja, aterrorizados. O rei, inclusive, empalideceu, demonstrando todo o seu terror. 

Diante desta situação tão terrível, Belsazar também estava impotente, não sabia o que fazer. Era o imobilismo que exsurgia, demonstrando mais um traço de decadência daquele império, que estava prestes a findar. Belsazar não tinha o que fazer, estava totalmente derrotado com aquele episódio sobrenatural, que mostrava toda a sua impotência, toda a vaidade de sua ilusória capacidade, que se mostrava claramente inexistente. 

O mundo é um engano total. Muitos correm atrás do prazer, desfrutam de suas riquezas, fama e vanglória, mas, na verdade, quando confrontados com as grandes questões da vida, com a demonstração da realidade espiritual, mostram-se totalmente impotentes, sem qualquer ação, sem qualquer capacidade de reação. A ilusão deste mundo não pode, mesmo, trazer respostas para os grandes embates da vida. Devemos estar sempre aos pés do Senhor, suplicando-Lhe a graça e a misericórdia e sempre com Ele aprendermos, a fim de que possamos, efetivamente, saber enfrentar os grandes desafios que se nos põem nesta peregrinação terrena. 

A situação era tão grave que alguém se lembrou de recorrer até a rainha-mãe, ou seja, à mãe de Belsazar e mulher de Nabonido, que a história diz chamar-se Nitócris, que foi conhecida por sua sabedoria, a ponto de ter sido considerada como uma verdadeira governante babilônia por Heródoto, o pai da história. 

Uma das comprovações de sua sabedoria é o fato de que, apesar de ser rainha-mãe, não se encontrava naquele banquete de Belsazar, a revelar toda a sua sobriedade e comedimento. A propósito, a história diz que, preocupada com a aproximação dos medos e persas, Nitócris teria se esforçado em reformar Babilônia, a fim de prepara-la para a defesa contra os inimigos, sendo, pois, ao contrário de seu filho, alguém que estava preocupada com as circunstâncias, que tinha conhecimento do que estava a ocorrer e do risco por que passava a sua nação. 

A rainha-mãe, ao saber da situação, vai até o encontro de seu filho e lhe traz uma sugestão, qual seja, a de que deveria procurar Daniel, que tinha “o espírito dos deuses santos” e que havia sido constituído, nos dias de Nabucodonosor, como chefe dos magos, astrólogos, caldeus e adivinhadores, já que nele havia sido achado “um espírito excelente, e ciência e entendimento, interpretando sonhos e explicando enigmas e solvendo dúvidas” (Dn.5:11,12). 

Nitócris não havia se esquecido de tudo que havia sucedido com seu pai Nabucodonosor e de que como Daniel havia predito o juízo divino que sobreviera a seu pai, como também outras situações em que se envolvera o “rei de reis”. Ao mesmo tempo, vemos que, mesmo com o passar dos anos, Daniel continuava a ter a mesma reputação que adquirira na sua juventude, mesmo passados quase 60 anos. 

Daniel continuava sendo conhecido como alguém que era chamado pelo seu nome de origem, ou seja, “Daniel”, a provar que mantinha, ainda, mesmo na velhice, a sua identidade de integrante do povo de Deus, como alguém que “tinha o espírito dos deuses santos”, ou seja, como alguém em quem havia o Espírito de Deus e, por fim, como “um espírito excelente, e ciência e entendimento”, ou seja, alguém que bem cumpria o seu papel, que era dedicado e esforçado em tudo o que fazia, que bem se conduzia dentro do palácio do rei, em sua vida secular. 

Perguntemos a nós mesmos: temos este mesmo testemunho que Daniel dava, com mais de 80 anos de idade, no palácio do rei? Será que podemos ser reconhecidos pelos que nos cercam pela nossa identidade de filho de Deus, pela presença do Espírito Santo em nós e pela nossa dedicação e esforço no cumprimento de nossas obrigações diante dos homens? 

Daniel vivia uma situação de esquecimento por parte da corte babilônia. Muito provavelmente já não mais governava a província de Babilônia e havia se mantido alheio a todas as mudanças de governo que haviam ocorrido desde a morte de Nabucodonosor. Talvez fosse visto como um “funcionário em ocaso”, como alguém que havia deixado de ter relevância na corte de Babilônia. Quiçá, ele mesmo achava que seu tempo já havia passado, que o que tinha de fazer como estadista já havia feito. No entanto, como diz o salmista: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes, para anunciarem que o Senhor é reto” (Sl.92:12-15a). 

Vivemos em uma sociedade que despreza muito os idosos, os chamados da “terceira idade”, o que é um grande equívoco. São os idosos que têm condições de transmitir, com sua experiência de vida, importantes informações para os mais jovens, permitindo, assim, a perpetuidade da sociedade, o crescimento e o desenvolvimento sociais. Muito perdemos por não dar ouvidos aos mais velhos, pois têm eles um importante papel a cumprir nesta transmissão de conhecimentos e experiências. 

Mas não é somente para este papel que os mais velhos se prestam. Eles devem entender que podem, ainda, ser muito usados por Deus, que seus ministérios não têm “prazo de validade” e que a escolha do Senhor perdura até o instante em que passamos para a eternidade. 

Daniel talvez pensasse que seu tempo havia findado, mas o que estava no fim era o Império Babilônico, não o trabalho importante que o Senhor tinha dado àquele ancião, e que já era exercido por cerca de 58 anos. Daniel ainda haveria de servir tanto no reinado de Dario, o medo, quanto no de Ciro, o persa. Daniel estava escolhido por Deus para ser a única pessoa, na história da humanidade, que serviria a três impérios sucessivos. 

Daniel encontrava-se como aquele pobre sábio descrito por Salomão em Ec.9:14-18, que, depois de ter conseguido livrar a sua pequena cidade de um poderoso exército, não era mais sequer lembrado pelos seus concidadãos. No entanto, diz o pregador, apesar de ter sido esquecido e desprezado, aquele pobre sábio tinha a melhor parte, era mais rico do que todos os que se esqueceram dele. 

Diante das palavras de sua mãe, Belsazar mandou que se chamasse Daniel, que, foi, então, introduzido na presença do rei. O rei, demonstrando toda a sua insensatez e insensibilidade, mesmo diante de tamanho currículo dado por sua mãe, prefere chamar Daniel de “um dos cativos de Judá que Nabucodonosor havia trazido de Judá” (Dn.5:13). 

Vemos como é cego e insensato aquele que envereda pelo caminho da arrogância, soberba e carnalidade. Mesmo diante de uma situação desesperadora, mesmo diante de um imobilismo total, o rei Belsazar não quis perder a aparência e chama o ex-chefe dos magos de “cativo de Judá”. Belsazar havia perdido a tranquilidade, mas não perdera a pose. Como é bom reconhecermos nossa insignificância e nos humilharmos diante de Deus! 

Somente depois de ter chamado Daniel de “cativo de Judá” é que revela que lhe havia sido dito que Daniel tinha o espírito dos deuses santos e que era ele portador de luz, entendimento e excelente sabedoria e que, por isso, queria que ele interpretasse a escritura da parede estucada. 

Belsazar era uma pessoa completamente alheia às coisas da sabedoria, completamente alheia a tudo quanto se desenvolvera na corte de Babilônia. Diz que “ouvira falar” a respeito de Daniel, mas não o conhecia, nem tinha tido qualquer interesse em conhecê-lo, não só a ele mas ao Deus Altíssimo que seu avô aprendera a louvar, a glorificar e a exaltar. 

OBS: “...Ainda hoje se dá que o homem natural não compreende as coisas de Deus, porque estas têm de ser interpretadas espiritualmente, I Co.2:14....” (NYSTRÖM, Samuel. Lição 9 – O banquete do rei Belsazar. 26 fev. 1939. In: Coleção Lições Bíblicas, v.1, p.28). 

As pessoas alienadas de Deus tem este mesmo comportamento que teve o rei Belsazar: uma conduta arrogante, totalmente voltada para si próprio, sem qualquer consideração para com as coisas espirituais e para os que se voltam para elas. São pessoas que buscam desesperadamente suprir este vazio que têm dentro de si com tudo o que mundo oferece, mas que jamais conseguirão alcançar a felicidade e a satisfação, pois somente se encontra no Senhor. 

Belsazar, então, após ter dito o que ouvira falar a respeito de Daniel, renova a oferta que havia feito aos demais sábios babilônios, ou seja, de que quem lesse e interpretasse a escritura seria vestido de púrpura, poria uma cadeia de ouro no pescoço e se tornaria o terceiro dominador do reino (Dn.5:16). 

Daniel, então, em primeiro lugar, disse ao rei que ficasse com os dons e que desse os seus presentes para outro (Dn.5:17). Esta resposta de Daniel destoa de todas as outras falas que o profeta havia feito na presença de Nabucodonosor. Teria a idade mudado o caráter de Daniel? Estaria ele mais “desbocado” do que antes? Será que teria razão aqui o que é dito ter falado, certa feita, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães (1916-1992), segundo o qual, depois que a pessoa passa dos setenta anos, podia falar o que bem quisesse? 

Não, não e não! Daniel era um homem íntegro, ou seja, tinha um caráter total e inteiramente construído pelo Senhor e não era a idade que iria modificá-lo. Continuava sendo um servo do Senhor, inabalável em suas convicções e maneira de viver. Sempre fora respeitoso para com os monarcas de Babilônia e não seria diferente agora que fora introduzido na presença de Belsazar. A sua fala mais dura era perfeitamente apropriada ao momento, pois Belsazar, como já vimos, era um rei fraco de caráter, totalmente alienado de suas responsabilidades e que havia se amoldado ao critério da concessão de benesses. Daniel quis deixar bem claro que não agia movido por honrarias, mas que era comprometido com o reino de Babilônia, tinha o sentimento do dever. 

O gesto de Daniel, aliás, faz-nos lembrar do que disse Abrão para o rei de Sodoma, depois que havia libertado todos os cativos na guerra que envolvera os reis sob o comando de Anrafel, rei de Sinar contra os reis das cidades da planície, sob o comando de Bera, rei de Sodoma. Abrão também nada quis do rei de Sodoma, pois sabia que nada daquilo lhe aproveitaria (Gn.14:21-24). 

Devemos ter esta mesma postura de Abrão e de Daniel, recusando toda e qualquer oferta ou vantagem oferecidos pelo mundo que venha a comprometer a nossa fidelidade a Deus, a nossa comunhão com o Senhor. Devemos sempre cumprir os nossos deveres, pois, quando estamos a servir, não estamos a servir aos homens e, sim, a Deus (Ef.2:5-7), sabendo que receberemos do Senhor todo o bem que fizermos (Ef.6:8), pois o Seu galardão está com Ele para nos dar segundo as nossas obras (Ap.22:12). Temos compromisso com Deus, não com os homens, máximes homens ímpios e blasfemos como era o caso de Belsazar. 

Apesar de abrir mão das honrarias oferecidas, mostrando que não era pessoa que tinha “um preço”, mas alguém que agia com o sentimento de dever, Daniel disse que leria e interpretaria a escritura que se encontrava na parede estucada. 

Antes, porém, de fazer a leitura e ler a interpretação, Daniel vai ao âmago da questão, ao motivo pelo qual aquela mão escrevera aquelas palavras na parede. Daniel fala a Belsazar a respeito do Deus Altíssimo, que Nabucodonosor aprendera a louvar, glorificar e exaltar, lembrando o episódio da loucura do rei e a sua razão de ser, fatos que, se não foram presenciados por Belsazar, eram, certamente, de seu conhecimento, embora não tenham tido o condão de lhe despertar o interesse de servir a este Deus. 

Daniel diz que, apesar de Belsazar saber de tudo o que havia ocorrido com Nabucodonosor, que, num documento oficial, havia dito que tudo isto lhe sobreviera por causa da soberba, não quis se humilhar diante do Deus Altíssimo, mas, antes, resolveu andar na soberba, soberba que superou a do seu próprio avô, na medida em que se levantara contra o Senhor do céu, trazendo os vasos da casa d’Ele para que neles se bebesse o vinho naquele banquete que fora interrompido pela misteriosa mão de homem que produzira a escritura. 

Belsazar tinha preferido louvar os falsos deuses, deuses que não veem nem ouvem, mas se recusado a glorificar o Deus Altíssimo, que demonstrara todo o Seu poder na loucura e posterior restauração de Nabucodonosor. Por isso, aquela mão viera para assinar a sentença contra o rei ímpio e blasfemo. 

A escritura era a seguinte: MENE, MENE, TEQUEL, UFARSIM, cuja interpretação era a seguinte: MENE – Contou Deus o teu reino e o acabou; TEQUEL – Pesado foste na balança e foste achado em falta; UFARSIM – Dividido foi o teu reino e se deu aos medos e persas. 

Notamos, de pronto, a repetição da palavra MENE, repetição esta que demonstra o poder de Deus, pois, como diz o salmista Davi, “duas vezes” ouviu ele, embora Deus tivesse dito apenas uma vez, que o poder pertence a Ele (Sl..62:11). Tal repetição indicava, portanto, que se trata de uma sentença vinda diretamente de Deus, de um exercício da soberania do Senhor. 

O Deus Altíssimo, que já havia se revelado na corte de Babilônia, como Aquele que tinha o reino sempiterno e cujo domínio era de geração em geração, dava a Belsazar a notícia de que seu reino havia acabado, que não se tratava de um reino perene, como imaginava Belsazar, mas um domínio passageiro e que tinha fim. Belsazar tanto achava que seu reino não tinha fim que, mesmo sitiado pelos medos e persas, resolvera banquetear, achando que “Bel o protegeria”, como dizia o seu nome. Estava totalmente enganado e o Deus Altíssimo que ele rejeitara estava ali para mostrar que Ele havia feito acabar o seu tempo e domínio. 

Será que não temos procedido como Belsazar, agindo como se fôssemos eternos, como se tivéssemos o domínio do tempo em nossas mãos? Lembremos do que nos ensina Tiago a respeito desta presunção ilusória que, por vezes, apresentamos, lembrando que somente poderemos fazer isto ou aquilo se o Senhor quiser e nos der vida para tanto (Tg.3:13-16). 

OBS: Recentemente, todo o Brasil assistiu atônito à morte do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (1965-2014), então candidato do PSB à Presidência da República, considerada uma das principais lideranças novas de nosso país, a nos lembrar quão falíveis são os projetos humanos... 

A segunda escrita mostra-nos que Deus não somente tem o controle do tempo e faz o que Lhe apraz, como também que é o juiz de toda a Terra (Gn.18:25). Todos nós somos pesados por Ele na balança e temos de ser aprovados, não podemos ser achados em falta, como foi Belsazar. O rei babilônio, na sua arrogância, achava que não devia prestar contas a ninguém, que era totalmente irresponsável pelos seus atos. No entanto, o Senhor fez questão de mostrar-lhe que, como ser humano que era, deveria, sim, prestar contas ao Senhor e, pior do que isto, fora achado em falta, ou seja, seria condenado pelo seu mau proceder. Não nos esqueçamos de que todos nós teremos de prestar contas ao juiz de toda a Terra (Cf. Hb.4:13). 

OBS: “Há um tempo de pesagem para os reis e imperadores e para todos os monarcas da Terra, embora alguns deles se exaltem a si mesmos para uma posição que eles pareçam ser irresponsáveis para o homem...” (SPURGEON, Charles. As escalas do julgamento. Sermão ministrado na manhã de domingo de 12 de junho de 1859 em Music Hall, Royal Surrey Gardens. Disponível em: http://www.spurgeongems.org/vols4- 6/chs257.pdf Acesso em 03 set. 2014) (tradução nossa de texto em inglês).
Vivemos dias em que o sentimento que existia no coração de Belsazar é a tônica predominante, inclusive entre os que cristãos se dizem ser. Com efeito, há um “discurso de liberdade” que vigora na atualidade, segundo o qual ninguém tem de prestar contas a ninguém, segundo o qual somos “livres” no sentido de que somos “autônomos”, i.e., somos independentes e não precisamos responder pelos atos que praticamos. 

Todavia, este pensamento é mais uma versão da mentira satânica que enganou os nossos primeiros pais. Estamos, sim, sujeitos à autoridade divina, é o Senhor Aquele que tem todo o controle de todas as coisas e que, por isso mesmo, tem condições de exigir que prestemos contas a Ele, o que já começa a ocorrer no momento de nossa morte física (Hb.9:27) e se consumará seja no Tribunal de Cristo, para os salvos que forem arrebatados (Rm.14:10; II Co.5:10), seja no Juízo do Trono Branco (Ap.20:11-15), para os demais. Qual o resultado do nosso peso na balança de Deus? 

A terceira escritura traz o juízo que sobreviria sobre o rei Belsazar: “Dividido foi teu reino e se deu aos medos e persas”. Belsazar não havia se arrependido, jamais havia dado atenção ao Deus Altíssimo e, ainda por cima, havia tomado a deliberação de deliberadamente voltar-se contra Ele ao usar os vasos do templo de Jerusalém. Por isso, o reino de Babilônia terminaria ali e seria substituído pelo império dos medos e persas, como, aliás, havia sido mostrado a Nabucodonosor cerca de 56 anos antes. 

Belsazar, resignado mas não arrependido, mandou que se dessem as honrarias prometidas a Daniel. Demonstrava, neste gesto, a sua soberba uma vez mais, já que fizera ouvidos moucos da negativa de Daniel em receber tais dons. Por que Daniel não se recusou a recebê-los? Porque não era rebelde, dava bom testemunho de fidelidade e lealdade ao rei a quem servia, mesmo sendo um rei ímpio e blasfemo como era Belsazar. Abrira mão das honrarias, mas não iria se rebelar contra o rei, mesmo sabendo que o rei estava nos últimos instantes de seu governo.

OBS: “...Nabucodonosor precisou ficar louco para ser convertido. Foi salvo porque se humilhou diante de Deus. Mas, Belsazar, apesar de tantos exemplos e advertências continuou no caminho da desobediência e morreu sem chance de arrependimento....” (LOPES, Hernandes Dias. Daniel – um homem amado no céu, p.69). 


O homem fiel a Deus não age conforme as circunstâncias, mas, sim, mantém-se inabalável e firme em sua maneira de viver. Daniel sabia que a sua posição de “terceiro dominador do reino” duraria algumas horas, se tanto, mas, como não tinha isto como objetivo ou finalidade, não se importou de recebê-las, pois o mais importante era ter lido e interpretado a escritura, bem como mostrado a Belsazar o porquê do juízo que iria sofrer. 

Belsazar não perdia a pose, não demonstrou qualquer arrependimento pelo que fizera e, mesmo diante do anúncio da catástrofe, manteve-se impassível, querendo aparecer como rei, como o “segundo dominador do reino”, já que era o corregente de seu pai, Nabonido, que não se encontrava em Babilônia naquele momento. 

O juízo divino consumou-se. Naquela mesma noite. Belsazar, o rei dos caldeus, foi morto, pois, como conta a história, Ciro, o comandante do exército dos medos e persas, havia desviado o curso do rio Eufrates, que cortava a cidade de Babilônia e pôde entrar, pelo leito seco do rio, naquela cidade, tida até então como inexpugnável, pondo fim àquele império mundial. Dario, o medo, ocupou, então, o reino, tendo sessenta e dois anos de idade (Dn.5:31). 

É interessante observar que Nabonido, embora tenha sido evidentemente destronado, não foi morto, registrando a história que morreu no exílio, pois fugiu para uma cidade chamada Borsiba, onde, entretanto, foi feito prisioneiro, mas não foi executado, tendo morrido em Carmânia, região banhada pelo Golfo Pérsico e pelo Mar Arábico, no sudeste da Arábia. Como Nabonido respeitou os vasos trazidos do templo de Jerusalém, foi poupado da morte ao contrário de Belsazar. 

Daniel, porém, milagrosamente, sendo o “terceiro dominador do reino”, não foi morto, tendo não só sido mantido vivo, mas, também, sido aproveitado pela nova administração como haveremos de ver na próxima lição. Muito provavelmente, o impacto produzido por aquela escritura na parede, que pôde ser vista pelos invasores, fez com que Daniel adquirisse imenso respeito por parte dos medos e persas e, por isso mesmo, tenha sido mantido vivo. O que havia sido um juízo para Belsazar, era mais um ato da Providência Divina para manter em vida o velho Daniel. Deus revelava todo seu amor para com o profeta e o honrava, mais uma vez, inclusive para preservar-lhe em vida. Deus honra àqueles que O honram (I Sm.2:30). 

OBS: “...Entretanto, devemos ainda observar aqui a maravilhosa e divina graça com relação ao profeta. Porquanto ele deveria ter perecido juntamente com os demais. Ele foi vestido de púrpura; pouco mais de uma hora se passara quando os persas e medos tomaram a cidade; em meio ao tumulto, ele dificilmente teria escapado se o Senhor não o tivera coberto com a sombra de sua mão. Portanto, vemos que Deus cuida dos seus e os livra dos maiores perigos, como se os estivesse tirando para fora do sepulcro...” (CALVINO, João. Daniel. Trad. de Eni Dell Martins Fonseca. Digit. Geral; jogois2006, v.1, pp.356-7) 


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