A providência Divina na fidelidade humana


escola dominical 2014 26 de outubro

Comentário: Ev. Dr. Caramuru Afonso Francisco

O servo de Deus deve ser fiel até a morte.


Introdução:

Na sequência do estudo do livro de Daniel, hoje estudaremos o seu capítulo três.

O episódio dos amigos de Daniel na fornalha de fogo ardente ensina-nos que o servo de Deus deve ser fiel até a morte.

I A ESTÁTUA DE OURO QUE NABUCODONOSOR MANDOU FAZER

- Na sequência do estudo do livro de Daniel, que é o objeto deste trimestre letivo, estudaremos hoje o capítulo três, que relata o grande livramento vivido pelos amigos de Daniel, Hananias, Misael e Azarias.

Daniel e seus amigos Hananias, Misael e Azarias estavam à frente do governo da província de Babilônia, a principal província do Império Babilônico, também chamado pelos historiadores de Império Neobabilônico, já que se trata da segunda fase de prevalência de Babilônia sobre os povos da Mesopotâmia ( a primeira fase de hegemonia de Babilônia, chamada de Império Paleobabilônico, durou de 1792 a.C. até 1595 a.C., enquanto que esta fase que estamos a estudar durou de 626 a.C. até 539 a.C.).


Daniel e seus amigos Hananias, Misael e Azarias haviam obtido esta importante posição por causa da revelação e interpretação do sonho que Nabucodonosor havia tido, ocasião em que Nabucodonosor reconhece que o Deus de Daniel era “o Deus dos deuses, o Senhor dos reis, o revelador dos segredos” (Dn.2:47). Provavelmente, o rei havia identificado o Senhor com a divindade “An” ou “Anu”, que, na mitologia babilônica, era o deus criador de todas as coisas mas cujo culto foi sendo esquecido ao longo da história babilônia, que, como sabemos, foi o berço da idolatria na humanidade.

Esta admissão de Nabucodonosor da superioridade do “Deus de Daniel”, no entanto, não significou qualquer conversão da parte do rei. Pelo contrário, o soberano continuou a seguir a religião politeísta de Babilônia e, mais do que isto, a entender que o domínio de seu reino deveria ser perpetuado.

Obs: “...O rei Nabucodonosor tinha visto a mão de Deus, manifestada por meio de Daniel, quando este interpretou o sonho que ninguém conseguida decifrar; mas, nem por isso, deixou os seus ídolos, fazendo, pelo contrário, uma e enorme estátua, que fosse adorada pelos seus cidadãos....” (NYSTRÖM, Samuel. Lição 8 – Os três homens no forno de fogo ardente. 19 fev. 1939. In: Coleção Lições Bíblicas, v.1, p.800).

Por causa disto, querendo como que fazer com que todos os povos por ele conquistados estivessem sempre sob o domínio de Babilônia, mandou construir uma estátua de ouro, cuja altura era de sessenta côvados, com largura de seis côvados, levantadas no campo de Dura, na província de Babilônia, com o objetivo de criar um culto a esta estátua que tivesse a participação de todo o seu reino.

É interessante verificar que as dimensões desta estátua de ouro bem falam do seu significado espiritual. Temos aqui uma estátua com sessenta côvados de altura e seis côvados de largura, ou seja, o número proeminente aqui é o número “seis”, que, na Bíblia Sagrada, sempre representa o número do homem.


Esta estátua, portanto, era mais uma tentativa humana de rebeldia contra Deus, mais uma ação do homem para marcar a sua “independência” de Deus. Babilônia, uma vez mais, era palco de uma manifestação da rebeldia contra o Senhor, como havia ocorrido nos tempos de Ninrode, no episódio da chamada “torre de Babel”.

Obs: “...Foi em Babilônia, após o dilúvio, que a mesma atitude de negação de Deus se manifestou, particularmente através de Ninrode e Semíramis. Era o mistério da injustiça, referido pelo apóstolo Paulo, mais uma vez operando desde a expulsão de Adão e Eva do Éden. O objetivo era a organização de uma igreja falsa, estruturada dentro de um sistema reli- gioso no qual fosse adorada uma falsa trindade. Dentro dessa organização o próprio Satanás estava (e está) preparando o mundo para a sua manifestação futura, quando reinará por um pouco de tempo sob a forma do Anticristo. O princípio é a glorificação do ser humano, divinizador de reis e imperadores, o culto à personalidade. Somente dentro de tal sistema compreende-se a deificação dos césares e dos grandes homens, aos quais se erigiam templos e em sua honra se ofereciam sacrifícios e libações....” (ALMEIDA, Abraão de. Babilônia ontem e hoje, p.16).

A construção desta estátua de ouro remete-nos ao próprio sonho do rei Nabucodonosor, que havia sido revelado a Daniel, bem como a sua interpretação, a nos indicar que tal estátua representa o próprio sistema gentílico, que é o sistema de rebeldia contra Deus, aquilo que, em o Novo Testamento, é chamado, em muitas passagens, de “mundo”, mundo este que se encontra no maligno (I Jo.5:19), mundo este que está em constante oposição contra o povo de Deus.

Esta estátua bem representa o mundo. Para começar, é uma estátua, que deveria ser adorada, a refletir, portanto, a idolatria que domina o mundo. O apóstolo Paulo bem observou que o primeiro passo da corrupção geral do gênero humano, ou seja, um dos traços característicos do mundo é a idolatria: “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.(...). Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de home corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis...” (Rm.1:18,23).

Além da idolatria, esta estátua era de ouro, a indicar aqui como o mundo está centrado no amor ao dinheiro, na prioridade das coisas materiais sobre as espirituais. Não é à toa, aliás, que a cabeça da estátua do sonho do rei era também de ouro. Uma das características do mundo é o materialismo, a priorização das coisas materiais sobre as espirituais, coisas espirituais estas que estão sempre a serviço da satisfação dos desejos carnais. O apóstolo Paulo é claro ao afirmar que o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males (I Tm.6:10).

Nabucodonosor, após ter construído a estátua, mandou que todos os altos funcionários do reino fossem convocados para a cerimônia de consagração da estátua, demonstrando, assim, que seu objetivo era o de criar um culto que consubstanciasse a superioridade de Babilônia sobre todos os povos. Esta estátua deveria ser adorada como um deus superior a todos os demais, como uma prova de que Babilônia era superior a todos os povos.

Obs: “...Um poema babilônico escrito provavelmente no oitavo século antes de Cristo, mas referindo-se a uma época muito anterior, cujas pranchetas foram desenterradas por arqueólogos, dão uma idéia da origem e evolução da religião pagã. Segundo o documento, no princípio existia um caos aquoso, de onde surgiram os deuses, representando a ordem que dimana do caos. Um desentendimento entre esses deuses leva Marduque, deus babilônico por excelência, a consentir em travar batalha, com a condição de ser elevado acima de todos os outros. Ele se arma para a luta, colocando um relâmpago sobre a face e vestindo-se de uma chama ardente. Tece uma rede para com ela aprisionar o monstro Tiamat, e toma os quatro ventos para que nada lhe escape. Transportado por um furacão, aproxima-se de Tiamat, lança-lhe uma tempestade e depois atravessa o com uma lança. Com a metade do corpo do monstro Marduque cobre o céu e, para lá manter as águas aprisionadas, coloca um ferrolho e um guarda. Seria este o firmamento das águas superiores. Em seguida coloca no céu as estrelas, os planetas, a lua e o sol. E com a outra metade do corpo de Tiamat forma a terra, que recobre o mundo subterrâneo. Finalmente, o vitorioso deus babilônico forma os homens com sangue, talvez mesmo com o seu próprio sangue. A finalidade precípua desse poema, que hoje soa de maneira tão primária e tola aos nossos ouvidos, é colocar Marduque acima de todas as outras divindades, criando assim a Hegemonia universal em proveito de Babilônia. E de fato esse falso deus recebeu um culto especial em todo o mundo antigo, na qualidade de dono e senhor, como aliás é o significado do seu nome mais popular: Baal....” (ALMEIDA, Abraão de. Babilônia ontem e hoje, p.20).

Razão tem o pastor José Serafim de Oliveira, ao nos informar, a respeito desta construção da estátua, o seguinte: “...Nabucodonosor, no apogeu do seu governo, tendo domínio sobre o mundo todo de então, achou que deveria também implantar no mundo uma única religião. O mundo todo deveria servir e adorar os deuses da Babilônia. Mandou, então, fazer uma estátua de ouro, que media sessenta côvados de altura por seis côvados de largura....” (Panorama histórico e teológico de Daniel e Apocalipse, p.10) (cópia para revisão no prelo).

O sistema gentílico sempre foi caracterizado pela tentativa de imposição, pelo poder político, de um culto idolátrico, de divinização do próprio poder político, culto este que não se importa com a existência de culto a outros deuses, mas que exige a superioridade deste próprio poder político sobre todos os demais valores, sobre todas as demais devoções.

O gesto de Nabucodonosor foi repetido pelos impérios mundiais que o sucederam, conforme se vê no sonho do rei que foi revelado a Daniel pelo Senhor. É o que vemos entre os medo-persas, os gregos e os romanos, sendo que, com relação a este último império, notabilizou-se o “culto ao imperador”, que foi o principal motivo da perseguição feita aos cristãos durante os primeiros séculos da era cristã. Tal gesto, também, será a característica do “Império Romano restaurado”, a ser governado pelo Anticristo, que, de igual maneira, exigirá adoração para si, a despeito de permitir a proliferação de todo tipo de religião idolátrica (Ap.9:20,21; 13:8,15).

Por isso faz sentido o que nos ensina o saudoso pastor Severino Pedro da Silva: “... Alguns comentadores de renome têm pensado que a estátua do presente texto fosse uma ‘imagem do deus Merodaque, o padroeiro da cidade de Babilônia; ou do deus Nebo, do qual derivava o nome do rei. Outros, porém, são de opinião que a estátua ali erigida era do próprio monarca Nabucodonosor (ver Jz.8:27; II Sm.818:18). Entre os antigos conquistadores era natural que, após uma grande conquista, o conquistador fizesse uma estátua de sua própria pessoa, gravando nela o seu nome e o nome de seu deus....” (Daniel versículo por versículo, p.53).

Isto já nos mostra que é totalmente inadequado e contrário à Palavra de Deus a instituição de uma “religião oficial”. Deve haver perfeita separação entre Igreja e Estado, porquanto o Estado jamais pode tratar de assuntos referentes ao relacionamento com Deus, sob pena de desvirtuar não só as atividades estatais quanto as propriamente religiosas. O Senhor Jesus foi bem claro ao dizer que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt.22:21; Mc.12:17; Lc.20:25). Nem mesmo no reino milenial de Cristo haverá tal imposição, pois, conforme podemos depreender das Escrituras, as nações terão a liberdade de vir adorar a Deus em Jerusalém, ou não (Zc.14:16,17).

O rei convocou toda a cúpula de seu governo para a cerimônia de consagração desta estátua. Os sátrapas eram os governadores das províncias do reino; os prefeitos, altos funcionários da corte, comandantes militares, como vemos no caso de Arioque (Dn.1:14,15); os presidentes, provavelmente governantes submissos aos sátrapas, sem falar nos demais funcionários do reino, a saber, juízes, tesoureiros, conselheiros e oficiais. A convocação destes altos funcionários realçava a ideia de que Nabucodonosor estava a querer implantar um culto a si próprio ou ao governo da Babilônia, a superioridade dos babilônios sobre todas as nacionalidades conquistadas.

Foi marcado o dia do evento e ali estavam todas as autoridades superiores do reino de Babilônia, que significava a instauração de um culto oficial, de uma religião oficial. Foi, então, dito pelo arauto, ou seja, aquele que vinha anunciar a chegada do rei, que todos os povos, nações e gente de todas as línguas, quando ouvissem o som da buzina, pífaro, harpa, sambuca, saltério, gaita de foles e de toda a sorte de música, deveriam se prostrar e adorar a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado, sob pena de ser lançado no forno de fogo ardente (Dn.3:4-6).

Notamos aqui que havia uma imposição por parte do rei Nabucodonosor, que é, precisamente, a característica de toda “religião oficial”, que é uma característica do mundo que está no maligno. O mundo sempre quer “impor” os seus valores, a sua maneira de ser. Temos aqui a verdadeira intolerância, porquanto, embora se permita a existência de outros cultos, de outras divindades, tudo só é permitido na medida em que se admite a superioridade do “culto oficial”, a supremacia de quem está com o poder político nas mãos.

É precisamente isto que vemos em nossos dias, dias da iminência da restauração do Império Romano, dias da preparação do último grande império mundial. Fala-se em “tolerância”, em “liberdade”, mas desde que sejam assumidos e obedecidos os ditames impostos pelos detentores do poder político. Não é, porventura, o que vemos na chamada “ditadura do politicamente correto”? Não é, porventura, o que vemos nas ações dos movimentos que, em nome de uma suposta “tolerância”, querem sufocar os valores cristãos em nossa sociedade pós-moderna?

Os babilônios eram extremamente “tolerantes” com as religiões dos povos conquistados, permitiam que se continuasse a sacrificar aos deuses, não impediam sequer que os judeus tivessem as suas sinagogas, que foram criadas precisamente durante o cativeiro babilônico. No entanto, não toleravam que se negasse o culto a tudo que representasse a sua supremacia, a sua superioridade. Quem não adorasse a imagem de ouro feita por Nabucodonosor seria lançado no forno de fogo ardente!

II – A FIDELIDADE DE HANANIAS, MISAEL E AZARIAS

Tudo estava pronto. As altas autoridades do reino de Babilônia, o império mundial do momento, haviam sido devidamente avisadas pelo arauto. Deveriam aguardar o som da música e, assim, prostrar-se diante da imagem de ouro que havia sido levantada pelo rei Nabucodonosor no campo de Dura.

Temos aqui, aliás, a utilização da música para propósitos idolátricos e de rebeldia contra Deus. Trata-se de mais uma característica maligna deste mundo, característica esta que, lamentavelmente, tem se infestado entre os que cristãos se dizem ser.

A música é algo divino, trata-se de uma atividade, uma arte que tem sua origem nos próprios céus, que estão impregnados da música, do louvor a Deus, como se pode depreender de diversas passagens bíblicas, tais como Ap.5, onde temos uma belíssima descrição do que ocorre diante da glória de Deus.

O texto sagrado revela-nos, inclusive, que a música era uma das atividades precípuas do querubim ungido diante do trono de Deus (Ez.28:13), o que explica o uso distorcido da música após a sua queda. Destarte, devemos sempre ter muito cuidado com relação à atividade musical, pois ela pode ter utilização distorcida, de verdadeira inspiração maligna, causando enorme prejuízo espiritual aos homens.

Aqui temos a utilização da música para a prática de uma abominação, para a reprodução de um ato de rebeldia contra Deus. A música foi tocada e, no mesmo instante, todos os altos funcionários do reino de Babilônia se prostraram e adoraram a imagem de ouro levantada por Nabucodonosor.

“...Naquela festa que tanto aborrecia a alma de Deus, já se podia detectar sinais do espírito do Anticristo, o homem do pecado (ver II Ts.2:3). Observamos os números apresentados na imagem e banda musical no culto pagão do rei Nabucodonosor: 1) A estátua tinha de altura sessenta côvados. 2) Tinha de largura seis côvados. 3) A banda de música compunha-se de seis instrumentos: buzina, pífaro, harpa, sambuca, saltério e gaita de foles. É curioso observarmos aí o número seiscentos e sessenta e seis (666). O Anticristo terá esse número talvez na testa e não na mão e, semelhantemente, seus súditos o terão também (ver Ap.13:16-18). Devemos ter em mente que as Escrituras são de natureza profética e se combinam entre si em cada detalhe (ver Ec.3:13)...” (SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo, p.59).

Entretanto, em meio àquela multidão de adoradores, três pessoas não se curvaram à imagem do rei: Hananias, Misael e Azarias, que eram os assessores diretos de Daniel, então governador da província de Babilônia, os “judeus”, como são identificados em Dn.3:8.

A primeira questão que se põe é a respeito do próprio Daniel, que, como sabemos, foi o autor do livro que leva seu nome. Embora narre o episódio, Daniel não diz se estava, ou não, naquela cerimônia e, em caso afirmativo, porque também não se encontrava entre aqueles que se negaram a adorar a imagem.

O texto sagrado é silente. No entanto, naturalmente que Daniel não adorou a imagem do rei, pois, se assim fosse, poderia o próprio rei ter interpelado os amigos de Daniel porque não agiam consoante o governador a quem assessoravam. Ademais, Daniel era fiel ao Senhor e não cometeria tamanho desatino. Tudo indica, portanto, que, por algum motivo de força maior, Daniel estava ausente naquela cerimônia e, aliás, por isso mesmo, seus três assessores diretos ali se encontravam, a fim de representar o governo da principal província do reino que, logicamente, não poderia ficar sem representante num momento tão solene quanto aquele.

Recentemente, um pastor conhecido nosso nos informou que ouviu uma pregação em que se disse que Daniel estava, sim, presente, mas não se prostrou porque a imagem que havia sido construída era dele próprio, Daniel, e, portanto, estaria ele isento da obrigação de se prostrar. Tal pensamento, no entanto, não tem qualquer cabimento, com o devido respeito a quem o disse.

Como já salientamos aqui, a imagem tinha a finalidade de reafirmar a superioridade de Babilônia sobre todas as nações, a sua supremacia. Assim, como poderia ser construída a imagem de um cativo como Daniel? Isto não faz o menor sentido, pois.

Imediatamente, surgiram alguns acusadores diante do rei Nabucodonosor para delatar que Hananias, Misael e Azarias não haviam se prostrado e adorado a imagem (Dn.3:8). “...O original diz claramente, ‘acusaram maliciosamente’ (ARA, ‘acusaram’), se traduz também pela pitoresca expressão ‘comer os pedaços de carne arrancados do corpo de alguém’, daí ‘difamar’. O Missionário Orlando Boyer comenta o que segue: ‘(...). Por certo ao povo de Deus não faltavam inimigos...’ “ (SILVA, Severino Pedro da. op.cit., p.58).

Não demorou para que Hananias, Misael e Azarias fossem denunciados ao rei porque eles eram “os judeus”, ou seja, eles davam testemunho de um modo de vida diferente na corte de Babilônia, o que, certamente, incomodava aqueles que tinham uma vida desregrada, baseada na idolatria e nas coisas desta vida.

Hananias, Misael e Azarias, como verdadeiros servos de Deus, não poderiam, mesmo, ser iguais aos demais que não serviam a Deus na corte do rei Nabucodonosor. Desde o momento em que haviam decidido, juntamente com Daniel, não se contaminar do manjar do rei, haviam tomado a deliberação de ser diferentes dos demais, de se manterem separados do pecado, do maligno e, por isso, não compactuavam, mesmo, com o mundo em que viviam. Estavam no mundo, mas não eram do mundo.

É precisamente esta postura que devemos ter como servos de Deus. O Senhor Jesus, em Sua oração sacerdotal, bem frisou que Seus discípulos estão no mundo, mas não são do mundo (Jo.17:11,16) e, por isso mesmo, são aborrecidos pelo mundo (Jo.15:18,19).

Assim como aconteceu com os amigos de Daniel, sempre seremos difamados e injustamente acusados pelo mundo por causa de nossa fidelidade a Deus, por causa de nossa vida santa. É este o sinal, aliás, de que estamos agradando a Deus. O apóstolo Pedro, inclusive, fez questão de dizer que o viver honesto que temos entre os gentios será sempre motivo de maledicência por parte dos incrédulos (I Pe.2:12), maledicência esta, entretanto, que será sempre uma glorificação do nome do Senhor através de nossas vidas.

O Senhor Jesus afirmou claramente, no sermão do monte, que se trata de uma bem-aventurança ser injustamente acusado pelos homens por causa de nossa fidelidade a Deus (Mt.5:11,12).

Hananias, Misael e Azarias davam ótimo testemunho na corte do rei Nabucodonosor. Eram “os judeus”, os diferentes, aqueles que se distinguiam dos demais porque não andavam segundo o curso do mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, segundo o espírito que opera nos filhos da desobediência (Ef.2:2). E nós, será que também temos este testemunho diante dos homens? Ou será que já nos transformamos em “Maria-vai-com-as-outras”, que não se diferenciam em coisa alguma dos incrédulos, que mantêm uma maneira de viver completamente envolvida pelo pecado e pelo mundo? Pensemos nisto, amados irmãos!

Os acusadores foram à presença do rei Nabucodonosor e relataram a ele o gesto de insubmissão daqueles jovens. Fizeram questão, inclusive, de dizerem ao rei que eles o menosprezavam, que “não faziam caso do rei” e que não serviam aos deuses babilônios, nem tampouco haviam se prostrado perante a imagem de ouro.

Notamos, pois, que Hananias, Misael e Azarias já causavam incômodo há muito entre os altos funcionários do reino de Babilônia, porque eram diferentes dos demais e, com sua conduta honesta e proba, geravam mal- estar em muita gente. Assim é o servo de Deus, pois o apóstolo Paulo nos diz que temos o “bom cheiro de Cristo”, cheiro este que é, para os que se perdem, cheiro de morte para morte (II Co.2:15,16). Nosso modo de vida santo como que faz com que os que nos cercam sintam o aroma da morte espiritual, a perspectiva do juízo eterno.

Este viver honesto daqueles jovens judeus estava, inclusive, evidenciado na própria presença deles naquela cerimônia, que nos mostram como eles eram, realmente, pessoas que tinham habilidade para viverem no palácio do rei (Dan.1:4).

Nabucodonosor havia convocado todos os altos funcionários para a cerimônia de consagração da estátua no campo de Dura, que ficava na província de Babilônia. Ora, Hananias, Misael e Azarias eram assessores diretos de Daniel, que era o governador daquela província e, portanto, bem sabiam qual a finalidade daquela convocação. Eram eles testemunhas oculares da construção daquela imagem e bem sabiam que era objetivo do rei que fosse ela adorada por todos.

Mesmo assim, diante da convocação, não se rebelaram contra tal chamado, mesmo sabendo que quem não adorasse a imagem estaria sujeito a ser levado à fornalha de fogo ardente. Sabiam que o rei Nabucodonosor tinha autoridade para fazer esta convocação. Sabiam que, como assessores do governador da província de Babilônia, eram obrigados a obedecer ao rei naquela ordem de comparecimento à cerimônia.

Como nos ensinava o saudoso pastor Severino Pedro da Silva, o crente deve sempre ir até onde a mão de Deus alcança. Obedecer ao rei e comparecer à cerimônia era dever daqueles jovens, que tinham de dar bom testemunho. Não podiam simplesmente se rebelar contra a autoridade legitimamente constituída. Deviam dar a César o que era de César, e, deste modo, deviam comparecer à cerimônia. Agora, prostrar-se e adorar a imagem de ouro ia além do alcance da mão de Deus, era algo que não poderia ser feito sem que se interrompesse a comunhão com o Senhor.

Devemos ter a mesma sabedoria que tiveram aqueles jovens. Muitos, em nossos dias, não se comportam deste modo sábio e acabam criando situações que não são demonstração de santidade ou de pureza, mas, sim, de ignorância espiritual. Não podemos nos rebelar contra as autoridades, ainda que sejam elas ímpias, pois toda autoridade é constituída por Deus (Rm.13:1) e resistir a elas é resistir ao próprio Deus (Rm.13:2). Enquanto estiverem tais autoridades nos limites preconizados pelo Senhor, devemos-lhes obediência, nunca nos esquecendo, entretanto, que mais importa obedecer a Deus que aos homens (At.5:29).

O efeito da acusação foi imediato. Nabucodonosor encheu-se de ira e furor, pois não podia admitir, em plena solenidade em que objetivava demonstrar a superioridade da Babilônia, ser assim desafiado por funcionários de sua própria corte. O rei, então, irou-se e se encolerizou, mandando, então, chamar aqueles jovens. Vemos aqui mais um retrato típico do mundo: a ira. Não é à toa que o apóstolo Paulo diz que os que andam segundo o curso deste mundo são “ por natureza, filhos da ira” (Ef.2:3).

A fala do rei Nabucodonosor bem demonstra quão irado estava ele. Inicia ele com a expressão “é de propósito”. “...A presente pergunta do rei mostra que ele tinha tomado o ato daqueles judeus como um verdadeiro desprezo ao seu edito real...” (SILVA, Severino Pedro da. op.cit., p.61). O monarca estava indignado ao saber que os jovens não só não haviam se prostrado perante a sua estátua, mas também não serviam aos deuses babilônios.

Nabucodonosor, então, quis demonstrar uma “tolerância”, quis fazer um “gesto de clemência”, que, na verdade, nada mais era que a reafirmação de sua autoproclamada supremacia e superioridade, que era o fim de toda aquela solenidade. É, precisamente, o que nos faz o mundo em nossos dias: em nome de uma “tolerância”, querem simplesmente impor seus falsos valores sobre nós, querem quebrar a nossa fidelidade a Deus. Jamais nos curvemos a estas propostas, amados irmãos!

Nabucodonosor, então, dá aos jovens uma outra chance de se prostrarem e adorarem a imagem de ouro. Diz que mandaria tocar novamente a música e, nesta oportunidade, deveriam os jovens se prostrar e adorar a imagem de ouro, sob pena de serem lançados no forno de fogo ardente, tendo, então, demonstrado toda a sua arrogância e soberba, que, afinal de contas, era o móvel que o havia levado a construir a imagem de ouro, ao afirmar: “E quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (Dn.3:15 “in fine”).

Não temos dúvida em afirmar que foi neste instante que o próprio rei Nabucodonosor decretou o livramento daqueles jovens, pois fez um desafio direto ao Senhor, algo que Deus não pode tolerar. Certa feita, quando uma pessoa que não nos tolerava, passou a recorrer à magia negra para nos prejudicar, tivemos a certeza de que seríamos vitoriosos naquele embate, precisamente porque, quando o nosso Deus é desafiado, Ele mesmo Se incumbe de mostrar a Sua soberania.

Diante da “oferta” de Nabucodonosor, aqueles jovens não titubearam em reiterar o seu compromisso com o único e verdadeiro Deus. Disseram eles que não precisavam responder ao rei sobre aquele negócio, ou seja, sobre o relacionamento que mantinham com Deus e a não adoração dos deuses babilônios ou da imagem de ouro. Era um tema que não dizia respeito ao rei, que não dizia respeito a César, mas, sim, a Deus (Dn.3:16).

Aqueles jovens, então, deram testemunho de que serviam unicamente ao seu Deus, que é o único e verdadeiro Deus e, mais, que Ele, sim, ao contrário do que afirmara o rei, poderia livrá-los se bem o quisesse, tanto do forno de fogo ardente, quanto das mãos do próprio Nabucodonosor, mas que isto dependeria da Sua vontade e, mesmo que não houvesse livramento, reafirmavam que não adorariam nem serviriam a estátua de ouro que havia sido levantada (Dn.3:17,18).

Obs: “...Os três homens, moços judaicos, que fizeram, quando ouviram a mensagem férrea do rei? 1o - Tomaram posição firme. V.16. 2o - Confiaram que Deus iria libertá-los. V.17. 3o Se Deus não nos quer libertar, mesmo assim não adoraremos a estátua mas preferimos morrer. V.18. Nessa resolução firme, vemos o poder da salvação. Nem a vida, nem a morte, nem as ameaças, nem os favores, nada disso separará os servos de Deus da Sua potente mão. Rm.8:31-39....” (NYSTRÖM, Samuel. op.cit., p.800).

Este testemunho de Hananias, Misael e Azarias traz-nos preciosas lições. A primeira delas é que aqueles jovens sabiam bem distinguir a autoridade do rei. Como já temos dito ao longo deste estudo, o poder político não pode jamais se imiscuir em nosso relacionamento com Deus. Embora firmes em sua resposta, aqueles jovens não deixavam de reconhecer a autoridade de Nabucodonosor, tanto que o tratam respeitosamente, como nos dá conta a expressão “ó rei” por eles utilizada no início de sua fala.

A segunda lição é a de que Deus é soberano, ou seja, embora tivesse poder para livrar aqueles jovens, não estava obrigado a fazê-lo. Hananias, Misael e Azarias não eram adeptos da “teologia da confissão positiva”, segundo a qual Deus está a nosso serviço e é obrigado a nos abençoar se estamos em comunhão com Ele. Embora fizessem questão de dizer que Deus tinha poder para livrá-los das mãos do rei e da fornalha de fogo ardente, eles não disseram que isto ia acontecer.

Aqueles jovens não serviam a Deus com o intuito de serem abençoados neste mundo, nem mesmo em terem poupadas as suas vidas. Serviam e adoravam a Deus pelo que Ele é, não pelo que Ele faz e, por isso, admitiam até mesmo morrer queimados no forno de fogo ardente, pois o mais importante para eles era manter o compromisso de obedecer ao Senhor e aos Seus mandamentos, o primeiro dos quais não permitia que ninguém fosse adorado a não ser o próprio Deus.

Vivemos dias em que, entretanto, este mesmo sentimento e convicção expressados por Hananias, Misael e Azarias não se apresentam na vida de muitos que cristãos se dizem ser, que dependem das bênçãos do Senhor para continuar a servi-l’O, que chegam, mesmo, a dizer absurdos como a de que “nossas expectativas encurralam Deus”. Deus é soberano, é onipotente, mas faz tudo conforme a Sua vontade. Lembremos disto, amados irmãos!

A terceira lição é a de que devemos falar a verdade sem medo e de modo firme. Aqueles jovens não temeram a fornalha de fogo ardente nem a ira e a cólera do rei Nabucodonosor, mas fizeram questão de reafirmar que não adorariam nem serviriam aos deuses babilônios e à imagem de ouro. Não foram covardes, mas reafirmaram a sua fé mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Quem assim não agir perderá a salvação, pois a Bíblia diz que ficarão de fora da cidade celeste os covardes, ou seja, aqueles que, diante das adversidades, não deixam de testificar o nome do Senhor, não deixam de agradar-Lhe (Ap.21:8).

Obs: “...TÍMIDOS. Acreditamos que os tais sejam os apóstatas que, por covardia, viraram as costas ao combate da fé e que, em tempo de tribulação, abandonaram a Cristo e seu testemunho, a fim de salvarem a pele. Negaram a Cristo na terra e, em consequência disso, serão negados no céu (Mt.10:33)...” (SILVA, Severino Pedro da. Apocalipse, versículo por versículo, p.267).

A quarta lição que nos dão aqueles jovens judeus é a de que temos de estar dispostos a morrer por causa da nossa fé em Deus. A fidelidade é um compromisso que se assume até o fim de nossa existência terrena, tanto que é o próprio Senhor quem nos recomenda a sermos fiéis até a morte (Ap.2:10). Por isso, é dito que a morte dos santos é preciosa à vista de Deus, porque revela esta fidelidade (Sl.116:15).

A fidelidade nada mais é que a manutenção do compromisso assumido com alguém num determinado instante. Trata-se de uma das qualidades do fruto do Espírito (Gl.5:22) e que nos mostra que estamos participando da natureza divina (II Pe.1:4), pois Deus é fiel (II Tm.2:13).

Diante de tamanha demonstração de fidelidade, que ganharam aqueles jovens judeus? Uma fornalha de fogo ardente aquecida sete vezes mais do que o normal! Nabucodonosor teve aumentada ainda mais a sua ira e mandou que a fornalha fosse aquecida sete vezes mais, para que não houvesse qualquer dúvida de que ele era quem mandava, que ninguém poderia desafiar o poder de Babilônia.

Isto ainda acontece em nossos dias. Aqueles que se mostram fiéis a Deus, que não se dobram à imposição do mundo, irão ser levados ao forno de fogo ardente aquecido sete vezes mais! As dificuldades aumentarão sobremaneira, a perseguição aumentará, mas isto não deve nos desanimar, pois, assim como o Senhor Se fez presente na fornalha com aqueles jovens, também estará conosco, pois Ele também é fiel e nos prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt.28:20). Aleluia!

Nabucodonosor, completamente alucinado, mandou que se trouxessem os homens mais fortes de seu exército, para que atassem Hananias, Misael e Azarias, a fim de que eles fossem lançados no forno de fogo ardente. Era uma cabal demonstração de poder que Nabucodonosor dava a todos os presentes, para que ninguém duvidasse da suposta superioridade e supremacia de Babilônia.

Aqueles jovens não tentaram fugir nem pediram clemência. Sua firmeza e fidelidade a Deus eram impressionantes. Deixaram-se atar pelos mais fortes soldados de Nabucodonosor. A ira do rei era tanta que foram eles atados com a própria indumentária que estavam, pois, para a cerimônia, estavam solenemente vestidos, com capas, calções, chapéus e vestidos (aliás, esta é a única menção a chapéus em toda a Bíblia Sagrada).

Estes mesmos homens fortes do exército de Babilônia foram os responsáveis por lançar aqueles jovens no forno de fogo ardente, mas, diante da alta temperatura determinada pelo rei, eles foram mortos ao fazerem tal lançamento, pois a chama do forno os matou (Dn.3:23).

Parecia mesmo que não havia livramento para aqueles homens, pois se até os que os lançaram no forno morreram queimados, que dirá aqueles que haviam sido lançados atados naquela fornalha. Era a máxima demonstração do poder supremo de Babilônia...

III – O LIVRAMENTO DIVINO DE HANANIAS, MISAEL E AZARIAS

Doce ilusão a de Nabucodonosor! Por primeiro, o rei deve ter percebido que havia “exagerado” ao mandar aquecer o forno sete vezes mais, pois havia perdido, com isso, os seus mais fortes soldados, algo que deve ter trazido alguma reação, ainda que, evidentemente, mantida enrustida entre todos os que estavam presentes.

Por segundo, Nabucodonosor estava tão obcecado com a perspectiva de ver demonstrada a superioridade de Babilônia, que não se contentou em ver executada a sua ordem, mas fez questão de contemplar, passado algum tempo, a transformação em cinzas daqueles jovens.

Obs: “...Que susto levou o rei Nabucodonosor! Levantou-se para ver as cinzas dos condenados, talvez já preparando o discurso intimidatório para quem ousasse desafiá-lo, mas, em vez de ver cinzas, viu quatro jovens soltos passeando no meio das chamas. Estarei delirando? Desesperado, chama seus auxiliares. Não lançamos três homens atados dentro da fornalha de fogo ardente? Sim, ó rei. Mas eu vejo quatro homens soltos passeando dentro do fogo, e o aspecto do quarto é semelhante ao filho dos deuses. ...( OLIVEIRA, José Serafim de. Panorama teológico e histórico de Daniel e Apocalipse, p.12) (cópia para revisão no prelo).

Ao ver o forno, porém, ficou assaz sobressaltado, pois, em vez de ver cinzas de três jovens, como era de se esperar, viu quatro pessoas que passeavam no meio do fogo sem se queimar. Certamente, contou uma, duas e mais vezes, percebendo que eram quatro as pessoas que caminhavam no meio do fogo. Então, completamente estupefato, perguntou aos seus capitães se não haviam sido lançados três jovens naquela fornalha, tendo, então, recebido a óbvia resposta afirmativa.

No entanto, Nabucodonosor, então, teve de admitir que estava a ver quatro homens que passeavam na fornalha de fogo ardente, sendo que o quarto era “semelhante ao filho dos deuses” (Dn.3:25).

Hananias, Misael e Azarias haviam sido firmes e fiéis até a morte e o Senhor quis mostrar, mais uma vez, ao rei Nabucodonosor que Ele era o único e verdadeiro Deus. Por isso mesmo, permitiu que se queimassem apenas as cordas com as quais aqueles jovens tinham sido atados e fez questão de estar presente juntamente com eles, já completamente soltos, no meio da fornalha.

Temos aqui o que os teólogos denominam de “teofania”, ou seja, de uma aparição do Senhor Jesus antes de Sua encarnação. O próprio rei Nabucodonosor testifica que este “quarto homem” era “semelhante ao filho dos deuses”, dando a entender que havia um aspecto glorioso nesta quarta figura, o que nos permite entender que tenha sido o Senhor Jesus.

Obs: “...O presente texto põe em foco o Filho de Deus. Jesus é o quarto homem em vários aspectos e, como tal, Ele é o grande Vencedor(...). No presente versículo, porém, Cristo como o quarto personagem venceu pelo Seu supremo poder pessoal, emanado d’Aquele que é o próprio ‘poder”, Deus, o Pai....” (SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo, p.67).

Ocorre, então, mais um milagre, pois Nabucodonosor chegou à porta do forno para chamar aqueles jovens. Por que um milagre? Porque, embora tenha se aproximado do forno e chamado os jovens, o rei não morreu queimado, como os soldados que haviam lançado Hananias, Misael e Azarias na fornalha. Deus não queria matar Nabucodonosor, mas mostrar-lhe que Ele era o único e verdadeiro Deus!

O rei, então, chamou aqueles jovens, já os considerando como “servos do Deus Altíssimo”, reconhecendo, assim, a soberania divina, isto num momento em que deveria ser demonstrada a supremacia de Babilônia. Amados irmãos, servimos ao Deus Altíssimo, Àquele que está acima de todo e qualquer poder político humano, Àquele que está acima do mundo e do poder maligno. Por isso, jamais deixemos de servi- l’O, de adorá-l’O, de fazer-Lhe a vontade!

Obedientemente, aqueles jovens saíram da fornalha. Eram apenas os três, pois o “quarto homem” tinha apenas a missão de com eles ficar na fornalha. Como afirma o pastor José Serafim de Oliveira: “...Deus não livrou os Seus servos da fornalha de fogo ardente, mas os livrou na fornalha de fogo ardente. Cumpriu-se literalmente, na vida desses moços, o que está escrito em Is.43:2: “Quando passares pelas águas, estarei contigo, e, quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti”....( op.cit., p.12) (cópia para revisão no prelo).

Obs: “...Os modos que a onipotência divina nos livra do mal são inumeráveis. (...). É bem certo que não quer Deus que Seus escolhidos se vejam livres de todo sofrimento enquanto são peregrinos do céu, mas, não poucas vezes, acode em seu socorro, sem contar que já é verdadeiro e não pequeno livramento a consolação que Deus nos concede em meio às adversidades que nos oprimem. O salmista dizia: ‘Multiplicando-se dentro de mim os meus cuidados, as Tuas consolações recrearam a minha alma’ (Sl.94:19). E, não raras vezes, intervém pessoalmente o mesmo Deus de maneira prodigiosa em nosso favor, concedendo-nos incolumidade nos perigos, como sucedeu aos três jovens lançados no forno aquecido (Dn.3:21,22) e a Daniel, na cova dos leões (Dn.6:22...”) (Catecismo Romano. Capítulo VII – A sétima petição do Pai Nosso. Item III b. Cit. Dn.3:21-24, n. 4700. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/index.htm Acesso em 29 ago. 2014) (tradução nossa de texto em espanhol).

Mais uma vez demonstravam sua habilidade para viver no palácio do rei. Obedeceram à ordem do rei, não tendo saído da fornalha enquanto o rei não lhes determinou que o fizessem. Uma vez saídos da fornalha, não lançaram em rosto o seu livramento. Nada falaram, permaneceram calados, apesar de toda a admiração que causaram diante de todos os presentes, que verificaram que eles não tinham tido nenhuma lesão, estando da mesma forma como antes de terem sido atados e lançados na fornalha de fogo ardente.

Como diz o texto sagrado, “nem só cabelo de sua cabeça se tinha queimado, nem as capas se mudaram, nem cheiro de fogo tinha passado sobre eles” (Dn.3:27). “...Que foi o que queimou no fogo? Foram as cordas que não eram deles, mas dos seus inimigos. No fogo do sofrimento se queimam as coisas que não são de Deus. Aleluia!...” (NYSTRÖM, Samuel. Lição 8 – Os três homens no forno de fogo ardente. 19 fev. 1939. In: Coleção Lições Bíblicas, v.1, p.801).

Diante de tamanha demonstração de poder, aquela cerimônia idólatra, que havia sido feita para a exaltação da suposta supremacia de Babilônia e, espiritualmente falando, do mundo e do maligno que o domina, acabou sendo uma solene declaração de exaltação de Deus e de Seu poder.

Nabucodonosor não pôde se conter e afirmou solenemente: “Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abedenego, que enviou o Seu anjo, e livrou os Seus servos, que confiaram n’Ele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar os seus corpos, para que não servissem nem adorassem algum outro deus, senão o seu Deus. Por mim, pois, é feito um decreto pelo qual todo o povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abedenego, seja despedaçado e as suas casas sejam feitas num monturo, porquanto não há outro Deus que possa livrar como este” (Dn.3:28,29).

O que era para ser a exaltação do sistema de rebeldia contra Deus passou a ser a solene declaração de que não há outro Deus a não ser o único e verdadeiro Deus, passou a ser o reconhecimento da parte do “dono do mundo” de que o nosso Deus é o único que pode livrar. Aqueles jovens tinham garantida, por toda a vida, a sua adoração a Deus, pois quem se opusesse a tal adoração seria tido como criminoso e deveria ser despedaçado e sua casa feita um monturo.

Obs: “...O inimigo prepara a cena, junta os espectadores. O estádio está aberto, os espectadores acorrem, e não são gente vulgar ou privado de condições, mas os mais honrados homens, todos revestidos de dignidade, certos de que seu testemunho será crido de todo o mundo. Eles vieram para assistir a um espetáculo que já havia sido anunciado antecipadamente, mas que decepção eles experimentaram! Vieram adorar uma estátua e se decepcionaram com ela. Eles se vão dali depois de ter admirado o poder de Deus que se mostrou tão miraculoso...” (CRISÓSTOMO, João. Quarta homilia. Cit. Dn.3:1-13, n. 744. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/index.htm Acesso em 29 ago. 2014) (tradução nossa de texto em francês).

Aqueles jovens, ainda, tiveram melhorada a sua posição na província de Babilônia, sendo prosperados porque foram fiéis a Deus (Dn.3:30). Não mais aparecem no livro de Daniel, mas, certamente, até o final de suas vidas, mantiveram-se como adoradores do Senhor, tendo garantida a sua adoração mesmo em meio a um povo tão idólatra como era Babilônia.

Assim como o Senhor livrou aqueles jovens na fornalha de fogo ardente, garantindo-lhes condições para que permanecessem servindo ao Senhor, de igual modo garante a cada um de nós, em nossos dias, o mesmo. Podemos continuar a servir a Deus, pois nada nos pode separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor (Rm.8:37-39). Podemos até sucumbir, mas ninguém pode nos impedir de alcançar a vida eterna. Lembremos disto, amados irmãos, pois o Senhor sempre está pronto a nos ajudar a manter a comunhão com Ele, pois não devemos temer aquele que pode matar o corpo, mas, sim, Aquele que pode lançar no inferno, que é, precisamente, este Deus enaltecido por Nabucodonosor (Lc.12:4,5).

Obs: “...E vós, também, se tendes a Deus por amigo, não vos desespereis se fordes lançados em uma fornalha, se se voltam contra vós, isto não vos fará perder a tranquilidade, pois vós estareis em um paraíso. Eles vos lançaram em uma fornalha, mas vós agistes nobremente e, por isso, a fornalha não vos fará mal algum...” (CRISÓSTOMO, João,. Quarta homilia. Cit Dn.3:1-13, n. 745. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/index.htm Acesso em 29 ago. 2014) (tradução nossa de texto em francês).

Hananias, Misael e Azarias sabiam que Nabucodonosor poderia matar-lhes o corpo, mas jamais poderia impedir que eles perdessem a sua comunhão com o Senhor e o Senhor honrou esta fé e fidelidade, fazendo-Se presentes com eles no forno de fogo ardente e lhes poupando a vida, não porque fosse obrigado a tal, mas porque tinham eles ainda algo a fazer sobre a face da Terra.

Obs: “...Sadraque, Mesaque e Abedenego ainda tinham algo a realizar e, por isso, eram imortais até o dia da morte natural. O verdadeiro crente tem em si mesmo esta confiança: enquanto ele tiver um serviço a fazer na terra, será imortal e só morrerá no dia em que Deus quiser!...” (SILVA, Severino Pedro da. Daniel versículo por versículo, p.66).

É aqui que vemos a chamada “Divina Providência”, que é bem definida no Catecismo da Igreja Romana que, por sua biblicidade, ora reproduzimos: “...A criação tem sua bondade e sua perfeição próprias, mas não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada ‘em estado de caminhada’ (‘in statu viae’) para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Chamamos de divina providência as disposições pelas quais Deus conduz Sua criação para esta perfeição: Deus conserva e governa com Sua providência tudo o que criou(...).O testemunho da Escritura é unânime: a solicitude da divina providência é concreta e direta, toma cuidado de tudo, desde as mínimas coisas até os grandes acontecimentos do mundo e da história. Com vigor, os livros sagrados afirmam a soberania absoluta de Deus no curso dos acontecimentos: ‘O nosso Deus está no céu e faz tudo o que deseja’ (S1 115,3); e de Cristo se diz: ‘O que abre e ninguém mais fecha, e, fechando, ninguém mais abre’ (Ap 3,7). ‘Muitos são os projetos do coração humano, mas é o desígnio do Senhor que permanece firme’ (Pr 19,21)....” (§§ 302 e 303 CIC).

Deus demonstrou, em meio àquela cerimônia que queria exaltar a supremacia do homem, a Sua soberania, a Sua divina providência. Devemos nós, também, jamais deixar de confiar no Senhor e, deste modo, sermos fiéis até a morte, prontos a receber a coroa da vida. Amém!
Colaboração para o Portal Escola Dominical 





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