O Diaconato (2)

Lição 12 - 20/06/14

Por Altair Germano

I – A INSTITUIÇÃO DO DIACONATO

No estudo dos dons ministeriais, passamos, desde a lição anterior, a analisar as “funções eclesiásticas”, ou seja, as posições sociais na igreja local mediante as quais se exercem os dons ministeriais com reconhecimento de todos os membros daquele grupo social.

Conforme já visto, duas são as funções eclesiásticas na igreja local: presbíteros e diáconos (Fp.1:1). Já tendo estudado a função de presbítero, passaremos a analisar a função de diácono.

O diaconato surgiu na primeira igreja local, a igreja de Jerusalém, conforme é relatado no capítulo 6 de Atos dos Apóstolos.

A igreja de Jerusalém vivia sob a direção dos apóstolos e havia um grande avivamento espiritual, com uma intensa evangelização que fez com que crescesse o número de discípulos daquela igreja.

Os crentes em Jerusalém viviam uma perspectiva de que o Senhor Jesus retornaria a qualquer momento, pois aguardavam “os tempos da restauração de tudo” (At.3:21), estando vívida na mente dos discípulos a perspectiva da restauração do reino de Israel, ocasião que o Senhor não havia mencionado quando se daria (At.1:6,7).

Por isso, os crentes, tendo recebido a salvação em Cristo Jesus, passaram a se desfazer de seus bens, pois entendiam iminente a volta do Salvador, passando a ter tudo em comum (At.2:44,45), o que fez com que a sobrevivência destas pessoas passasse a ser uma função da própria igreja, já que os recursos econômico- financeiros eram entregues aos apóstolos, após a venda das propriedades (At.4:34).

Isto fez com que os apóstolos tivessem de dedicar algum tempo para a questão da distribuição dos recursos existentes para o sustento dos crentes, como também para que fossem, também, sustentadas as viúvas que, quando se tornavam cristãs, deveriam ser igualmente mantidas, já que, com a adesão à fé, estavam elas notoriamente apartadas das sinagogas, que, via de regra, eram as responsáveis pelo seu sustento, dentro dos parâmetros ditados pela lei de Moisés.

O aumento do número de crentes, porém, e a prioridade que os apóstolos davam para o ministério da palavra e para a oração, fez com que os apóstolos não dessem conta deste trabalho, de modo que, não demorou muito, passou a haver problemas nesta distribuição de recursos entre as viúvas, e, o que era mais grave, iniciou-se uma murmuração porque havia um desprezo das viúvas dos gregos, ou seja, bem se entenda aqui, as viúvas que eram judias que tinham vindo de colônias judaicas situadas fora da Palestina.

Devemos aqui verificar, aliás, que devemos ter sempre cuidado com as “transferências culturais” que sempre há nas igrejas locais que, por serem grupos sociais surgidos no meio de uma determinada sociedade, jamais conseguirão extirpar de vez circunstâncias e mentalidades existentes naquela sociedade.

Entre os judeus, havia uma certa discriminação dos chamados “judeus da diáspora”, também chamados de “judeus gregos”, ou seja, judeus que viviam e habitavam nas diversas colônias judaicas existentes em vários países, judeus que eram descendentes de pessoas que ou não voltaram do cativeiro da Babilônia, ou que, num determinado período após o retorno do cativeiro, resolveram morar fora da terra de Canaã.

Os “judeus gregos” eram vistos pelos “judeus hebreus”, ou seja, aqueles que haviam retornado do cativeiro da Babilônia, como “renegados”, pessoas que se mantinham fora da terra que o Deus havia dado a Israel, pessoas incrédulas, que mais prezavam pelas coisas terrenas do que pelas promessas de Deus. Basta ver, aliás, que tais “judeus gregos” tiveram de passar por uma “burocracia” criada pelos próprios discípulos para poderem ver a Jesus (Jo.12:20-22).

Este desprezo com relação às viúvas dos gregos gerou uma murmuração, a primeira que se tem notícia no seio da igreja de Jerusalém, o que levou os apóstolos, zelosos pelo bem-estar espiritual e material do rebanho do Senhor, a fazer uma autocrítica e a reconhecer que toda aquela situação era decorrência do acúmulo de funções que estavam a ter e que isto contrariava o propósito de Deus.

Os apóstolos tinham a plena consciência de que haviam sido chamados para exercer o ministério da palavra e a oração, que tinham de se dedicar para o exercício dos dons ministeriais de evangelista, pastor e mestre e que não lhes cabia cuidar do chamado “ministério cotidiano”, da distribuição de recursos econômico-financeiros para a subsistência não só das viúvas mas de todos quantos viviam com tudo em comum na igreja de Jerusalém.

Os apóstolos reconheceram que, diante do crescimento do número de discípulos, era necessária uma descentralização de atribuições, a criação de um novo corpo de obreiros que pudesse levar a cabo este “ministério cotidiano”, que era um “importante negócio”, pois além de cuidar da própria sobrevivência dos crentes, não só das viúvas, ressalte-se, mas de todos os que haviam se privado de todos seus bens para servir ao Senhor, isto seria fundamental para mostrar a própria existência do amor de Deus entre os cristãos, o que era indispensável para que se tivesse um testemunho a ser dado e que seria um fator primordial no êxito da própria evangelização.

Os apóstolos, então, reconhecendo primeiramente os seus próprios erros, convocaram a igreja para discutir o assunto, mostrando aos crentes que eles haviam sido chamados para o ministério da palavra de Deus e que não era razoável deixarem esta função para se dedicarem ao “serviço das mesas”.

Quando vamos ao texto original grego, notamos que a expressão “ministério cotidiano” é tradução de “diakonía té kathemeriné” (διακονία τή καθημερινή), enquanto que “servir às mesas” é tradução de “diakonein trapedzais” (διακονειν τραπέζαις), de modo que se sobressai em ambas as expressões a palavra “diakonía” ou “diakonein”, que têm, respectivamente, os significados de “servidor” ou “servo” e de “servir”.

 O papel do “diácono”, portanto, é o papel de “servidor”, “daquele que serve”. No Léxico do Novo Testamento Grego/Português de F. Wilbur Gingrich e de Frederick W. Danker, é dito que “diákonos” significa “servo” (Mt.20:26; 22:13; Mc.9:35); especificamente “garçom” (Jo.2:5,9); “agente” (Rm.13:4; Gl.2:17); “auxiliar”, pessoa que presta serviço como cristão: a) a serviço de Deus, Cristo ou a outro cristão (II Co.6:4; 11:23; Ef.6:21; Cl.1:23,25; I Tm.4:6); b) em caráter oficial ou semioficial (Rm.16:1; Fp.1:1; I Tm.3:8,12)....” (op.cit., p.53).

Notamos, portanto, que os apóstolos, ao convocarem a multidão, propuseram que este trabalho de distribuição de recursos necessários à subsistência das viúvas e, por extensão, a própria distribuição dos recursos entre os cristãos que tinham tudo em comum ficasse em outras mãos, fosse responsabilidade de pessoas que se dedicassem a este serviço, que servissem às mesas, ou seja, ficassem responsáveis pelo sustento daquelas pessoas.

Segundo alguns estudiosos, entre os quais o pastor Severino Pedro da Silva, os apóstolos teriam se inspirado na estrutura existente nas sinagogas, onde havia os chamados “parnasim”, aqueles encarregados da provisão, do sustento e da alimentação dos integrantes da sinagoga, auxiliares diretos do “principal da sinagoga” (Mc.5:35,36,38; At.18:8,17).

Notamos, portanto, de pronto, que não havia uma hierarquia entre o trabalho dos apóstolos e o trabalho dos diáconos. Eram tarefas de natureza diversa. Os apóstolos tinham de se dedicar ao ministério da palavra e à oração, enquanto que os diáconos deveriam “servir às mesas”, ou seja, preocupar-se com o sustento material dos crentes. Tarefas importantes e necessárias, tanto que os próprios apóstolos disseram que o trabalho dos diáconos era um “importante negócio”, tarefas que se complementariam na produção de ambiente propício à evangelização e à edificação do corpo de Cristo.

Há, portanto, uma descentralização de tarefas, uma dissociação de funções: de um lado, os presbíteros (e os apóstolos eram, em Jerusalém, os pastores daquela igreja local, naquele momento histórico), que deveriam cuidar do ministério da palavra e da oração, ou seja, do sustento espiritual do povo de Deus; de outro, os diáconos, que deveriam “servir às mesas”, cuidar do “ministério cotidiano”, cuidando da sobrevivência física, do sustento material do povo de Deus. Como afirma a 

“Forma de Governo Presbiterial da Igreja”, um dos documentos da Assembleia de Westminster: “...As Escrituras estabeleceram os diáconos como oficiais distintos na igreja, cujo ofício é perpétuo....” (tradução nossa de texto original em inglês, disponível em: http://www.reformed.org/documents/wcf_standards/index.html?mainframe=/documents/wcf_standards/p395-form_presby_gov.html Acesso em 01 abr. 2014).

É importante verificarmos esta realidade na instituição do diaconato, porque, lamentavelmente, em virtude do que já denominamos “burocratização” que se processou na Igreja, ao longo da história, os diáconos passaram a ser considerados como o “primeiro degrau da carreira ministerial”, como o “grau inferior da hierarquia”, como o denomina o Catecismo da Igreja Romana (§ 1569 CIC), de sorte que não há esta visão de que são tarefas distintas que se exercem e que, portanto, se complementam e não se tem esta noção hierárquica, que se construiu ao longo da história da Igreja.

Os apóstolos fizeram questão de mostrar que se estava diante de um “importante negócio”, de uma tarefa importante e que, por isso mesmo, merecia que fosse cuidada por pessoas especialmente escolhidas para ela, evitando-se, assim, o acúmulo de funções nos apóstolos, que levaria a uma situação de mal-estar espiritual para a igreja.

O acúmulo de funções fizera surgir no seio da igreja de Jerusalém a murmuração, esta erva daninha que, em se alastrando, compromete a salvação do povo de Deus, como, aliás, ocorreu em Israel, levando ao fracasso espiritual da geração do êxodo. Para se evitar isso, os apóstolos, então, decidiram escolher pessoas que se dedicassem integralmente a este trabalho, promovendo, assim, o amor fraternal, a saúde espiritual e, ao mesmo tempo, não permitindo a perda do foco dos ministérios dos apóstolos.

O diaconato não veio, portanto, para ser o primeiro degrau de uma carreira ministerial, como é visto hoje em dia, mas, sim, para que se desse às questões materiais da igreja o devido tratamento, bem como não se permitisse que o acúmulo de funções prejudicasse as questões espirituais do rebanho de Deus.

OBS: A já mencionada Forma de Governo Presbiterial da Igreja é bem clara a respeito: “...A este ofício não pertence a pregação da Palavra nem a administração dos sacramentos, mas o cuidado especial na distribuição das necessidades dos pobres...” (tradução nossa de texto original em inglês) (end.cit, acesso em 01 abr. 2014).

Fonte: http://www.portalebd.org.br

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